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Responsável - Lúcio Packter, filósofo formado pela PUC-Fafimc, de Porto Alegre.



Qual a justificativa para a vida?

 
Há provavelmente milhares de respostas filosóficas a esta pergunta. Leia como um exemplo o que escreveu Kafka em seus apontamentos:

Ninguém aqui gera mais do que a sua possibilidade espiritual de viver; pouco importa que dê a aparência de trabalhar para se alimentar, para se vestir, etc.; com cada bocada visível uma invisível lhe é estendida, com cada vestimenta visível uma invisível vestimenta. Está nisso a justificação de cada homem. Parece fundamentar a sua existência com justificações ulteriores, mas essa é apenas a imagem invertida que oferece o espelho da psicologia, de fato erige a sua vida sobre as suas justificações. É verdade que cada homem deve poder justificar a sua vida (ou a sua morte, o que vem dar no mesmo), não pode furtar-se a essa tarefa.


Como flutuam os valores na existência?

 
Às vezes os valores de fato flutuam ou parecem ter uma maleabilidade enorme. Leia o que Nietzsche escreveu:

"Todas as coisas 'boas? foram em outro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprudência de se apropriar de uma mulher. Os sentimentos doces, benévolos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os 'valores por excelência?; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza?.


Um valor que se institui por ausência? Como pode ser?

 
Colocamos a seguir um trecho do programa de rádio Conversando com Lúcio Packter, no qual o filósofo discorre sobre valores:

Há inúmeros modos e conceitos em torno dos valores. Exemplo: valoração por ausência. Sabe aquelas pessoas que costumam valorar quando perdem algo? Enquanto tinham a esposa, somente desejavam não ter; depois que a perderam, sentem falta até dos momentos ruins. Alguns descobrem que é pior sem ela... Em seus Pensamentos, Marco Aurélio, lança algumas luzes sobre isso: "Não julgues as coisas ausentes como presentes; mas entre as coisas presentes pondera as de mais preço e imagina com quanto ardor as buscarias se não as tivesses à mão. Mas ao mesmo tempo toma cuidado, não seja caso que ao deliciares-te assim nas coisas presentes te habitues a dar a elas valor exagerado; procedendo assim, se um dia as viesses a perder, davas em louco rematado?.


Por favor, um exemplo entre o todo e as partes, as relações.

 
Há muitos, centenas de exemplos, na Filosofia. Inúmeros filósofos trabalharam a questão sob diferentes aspectos. Leia o que escreveu Pascal quando tratou do homem na natureza:

Acreditamos muito naturalmente sermos mais capazes de alcançar o centro das coisas do que de abraçar-lhes a circunferência; a extensão visível do mundo ultrapassa-nos manifestamente; porém, como ultrapassamos as coisas
pequenas, acreditamo-nos mais capazes de possuí-las; entretanto, não nos falta menos capacidade para chegar ao nada do que chegar ao todo; para um, como para outro, falta-nos uma capacidade infinita, e creio que quem tivesse
compreendido os princípios últimos das coisas chegaria também a conhecer o infinito. Uma coisa depende da outra, e uma conduz à outra. Esses extremos se tocam, e se unem, à força de se afastarem, encontrando-se em Deus, e somente
em Deus. Conheçamos, pois, nossas forças; somos algo e não tudo; o que temos que ser priva-nos do conhecimento dos primeiros princípios que nascem do nada; e o pouco que somos nos impede a visão do infinito.


O futuro é mesmo um dos pilares de Ser e Tempo?

 
Este é um tema que parece ter encontrado um resposta plácida entre os filósofos atualmente. Leia, como um exemplo, o que escreveu o filósofo francês Roger Garaudy:

Heidegger privilegia o papel do futuro no desenrolar do tempo: superamo-nos sem cessar em direção ao futuro; estamos sempre à frente de nós mesmos; a existência é vivida, sobretudo como futuro (...). O homem é o futuro do homem, a idéia central da obra fundamental de Heidegger, Ser e Tempo.


O passado ainda é defensável?

 
Para muitos pensadores, sim. Leia o que escreveu Anatole France: "E se procurarem saber porque é que todas as imaginações humanas, frescas ou murchas, tristes ou alegres, se voltam para o passado, curiosas de nele penetrarem, acharão sem dúvida que o passado é o nosso único passeio e o único lugar onde possamos escapar dos nossos aborrecimentos quotidianos, das nossas misérias, de nós mesmos".


Podemos dizer como exatamente será o futuro?

 
Filosoficamente, é improvável esta previsão. Leia o que escreveu Jaspers sobre o assunto: "Caminhamos para um futuro que não pode ser conhecido, que, na sua totalidade, não está decidido. A imagem que dele temos é ncessantemente corrigida pela experiência. O conhecimento do ser na sua totalidade continua a ser-nos inacessível. O saber que temos da superabundante realidade não mais se completa. A nossa consciência está sempre em marcha".


Somos seres em construção? O que isso quer dizer?

 
Homens como Sartre colocaram esta possibilidade. Há muitas formas de abordagem desta questão. Uma delas, a temporal, pode ser ilustrada na seguinte opinião daquele pensador existencialista: "O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente?".

   

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