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Resenha do mês

(13/Jun)

O HOMEM DO CASTELO ALTO - PHILIP K. DICK


EM O HOMEM DO CASTELO ALTO
DE PHILIP K. DICK
HISTÓRIA E HISTORICIDADE



Philip K. Dick nasceu em Chicago, 1928. Apaixonado por música, empregou-se numa loja de discos e produziu um programa clássico na estação de rádio KSMO, de San Mateo, Califórnia. Estudou na Universidade daquele Estado, mas não terminou o curso porque havia gente demais fumando e lendo o Daily Cal, o que não me permitia ouvir os professores, contava em suas entrevistas. Começou a ler ficção. aos 12 anos em conseqüência de um engano: comprou Stirring Science Fiction em vez de Popular Science. Lia também Joyce, Kafka, Steinbeck, Proust. Casou-se com Anne, que conheceu na loja de discos, comprou uma casa, começou a escrever e a vender ficção. Largou o emprego na loja, continuou ouvindo Monteverdi e Buxtehude mas passando a maior parte do tempo lendo Ibsen e escrevendo. Adorava gatos.

A excelência de sua obra o tornou uma referência da ficção científica do século 20. Vários de seus trabalhos tornaram-se mundialmente conhecidos ao serem roterizados e transformados em grandes sucessos do cinema, como Blade Runner: o caçador de androides, O Vingador do Futuro, Minority Report: a nova lei e O Pagamento.É autor de cinco coletâneas de contos e 36 romances, dentre eles O Homem do Castelo Alto , VALIS, Ubik e Os Três Estigmas de Palmer Eldritch. Morreu em 1982, aos 53 anos.

As suas obras trazem história e historicidade contadas a um nível filosófico. É o que acontece em O HOMEM DO CASTELO ALTO. A história vista como ciência pura e objetiva, a historicidade vista como uma narrativa com linhas subjetivas, apesar de suas formações, ambas tem muito em comum, o recurso dos qual um historiador dispõe não diferem muito de uma pessoa narrando sua historicidade. A saber, ambos se apropriam de eventos (sejam eles factuais ou não) e lhes dão ordem e significado, com o intuito de envolver o leitor, ou trazer o ouvinte a seu mundo, a um mundo ao qual ele não tem acesso, a não ser através da linguagem utilizada por quem narra. Dessa forma, a historicidade implícita na história vem à tona, revelando suas estratégias de seleção, organização e produção de fatos.

Em seu livro Pós-Modernismo ou a Lógica Cultural do Capitalismo Tardio, Fredric Jameson propõe uma definição mais abrangente de historicidade:

A historicidade, de fato, nem é uma representação do passado, nem uma representação do futuro (...) ela pode ser definida, antes de mais nada, como uma percepção do presente como história, isto é, como uma relação com o presente que o desfamiliariza e nos permite aquela distância da imediaticidade que pode ser caracterizada finalmente como uma perspectiva histórica. (JAMESON, 1991: 235)

Esse distanciamento do presente é o que dá objetividade, é o que possibilita, então, o entendimento da época em que se vive como momento histórico, o que cria a historicidade em ações, objetos, personagens e transforma acontecimentos cotidianos em fatos. É original.

Philip K. Dick, considerado pela crítica um dos mais célebres escritores de ficção científica dentre aqueles na literatura americana, traz em seu livro O HOMEM DO CASTELO ALTO essa relação entre história e historicidade. O romance traz encontrar uma preocupação relacionada a questões de cunho histórico, principalmente o papel do homem em eventos importantes do passado e de que maneira(s) fatos da história influenciam a historicidade do indivíduo e a sociedade que a cerca. Essa relação estreita entre o passado histórico e a historicidade parece ser central na escrita da ficção científica de Dick.

O Homem do Castelo Alto, apresenta um cenário sombrio na história, a Segunda Guerra Mundial. Neste mundo inventado por Philip Dick, a guerra foi vencida pelos Nazistas. O mundo vive sob o domínio da Alemanha e do Japão. Os negros são escravos. Os judeus se escondem sob identidades falsas para não serem completamente exterminados. É nesse contexto que se desenvolvem os dramas de vários personagens. Ao apresentar uma versão alternativa da história, Dick levanta a grande questão: “O que é a realidade, afinal?”. Tal questão encontra na historicidade de seus personagens , uma constante busca por aquilo que seja originalmente antigo, pois é a condição para se ter acesso a uma autenticidade que praticamente inexiste neste mundo ficcionalizado por Dick.


DICK, Philip K., 1928-1982. O homem do castelo alto; tradução Fábio Fernandes. – 3. ed. – São Paulo : Aleph, 2009.

JAMESON, Fredric Pós-modernismo: A lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1991.
 
       

 
 
Como referenciar: "O HOMEM DO CASTELO ALTO - PHILIP K. DICK - Resenha" em Só Filosofia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2019. Consultado em 14/12/2019 às 04:21. Disponível na Internet em http://filosofia.com.br/vi_res.php?id=24