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Resenha do mês

(26/Dez)

Alucinações Musicais

Novamente um título que não é específico de filosofia, mas em muito se relaciona com ela. De Hipócrates a Nietzsche, de Santo Agostinho a Wittgenstein, passando por Leibniz, Rousseau, Kant, Emerson, Eco e muitos outros filósofos, o neurologista Oliver Sacks discute as relações entre a música e o cérebro, em artigos organizados em quatro grandes blocos: Perseguidos pela música; A variação da musicalidade; Memória, movimento e música e Emoção, identidade e música. Em Perseguidos pela música ele aborda várias situações neurológicas nas quais seus pacientes apresentam uma espécie de perseguição pela música. Desde a música que surge como aura para uma convulsão, até aquela capaz de provocá-la; os brainworms ou earworms, como ele os denomina, vermes do cérebro ou do ouvido. Sabe aquela música que não sai da sua cabeça, e você nem gosta muito dela? Às vezes queria deixar de ouvi-la e lá está ela, e você não sabe onde fica o botão para desligá-la. Há pessoas que ouvem, possuem uma música que toca dentro de suas cabeças, atrapalhando as atividades cotidianas. Sacks cita pacientes que possuem um ipod na cabeça e não conseguem desligá-lo. Como na maioria de seus trabalhos, suas pesquisas contam com a contribuição de filósofos, neurocientistas, outros neurologistas, musicólogos, musicoterapeutas, psicólogos e outros profissionais. O encaminhamento de seus trabalhos consiste, em grande parte, em auxiliar o paciente a lidar com o que lhe ocorre, pois muitas vezes não há como resolver o problema. Na segunda parte, ele discute musicalidade, ouvido absoluto, o cérebro dos músicos e dos não músicos. Haveria diferenças nos cérebros de músicos e não músicos, de pessoas com ou sem ouvido absoluto? Haveria alguma relação entre hereditariedade e musicalidade? Comparando estudos e dados empíricos advindos de sua prática, Oliver Sacks questiona se as diferenças encontradas nos cérebros dos músicos e não músicos teriam uma origem genética, e por isso um músico se tornaria músico, ou se tais diferenças seriam advindas de um desenvolvimento de partes do cérebro devido aos estímulos provocados pela prática e pelo estudo da música. Feito tal questionamento, ele é ampliado para outros estímulos que recebemos em nossa formação. Na terceira parte cita casos de síndromes como Tourette. Parkinson, membro fantasma, distonia, entre outras, e as relaciona com a música como forma de tratamento. Por fim, na última parte, estuda os sonhos musicais, música e depressão, emoções e música, síndrome de Williams, demência e musicoterapia. Em suas conclusões, mostra o quanto a música se relaciona diretamente ao desenvolvimento de partes do cérebro, e o quanto ela pode ser um acesso para várias formas de tratamento. Ao relatar alguns casos de síndrome de Williams, mostra que é possível o quem (a singularidade, a construção de uma vida a partir das características biológicas iniciais e dos elementos do ambiente) sobrepor-se ao o que (os diagnósticos das síndromes). Uma leitura interessante para aqueles que desejam uma aproximação às questões da filosofia da mente, da neurociência, da filosofia da música, ou simplesmente, buscam refletir sobre como os sons aos quais somos expostos diariamente (alguns deles por nosso desejo, outros não) podem influenciar naquilo que somos.

DADOS:
Título: Alucinações Musicais: Relatos sobre a música e o cérebro
Autor: Oliver Sacks
Ano: 2007
Editora: Cia das Letras
Páginas: 360
ISBN: 978-85-359-1091-9
Valor: R$ 51,50 (cinqüenta e um reais e cinqüenta centavos)

Responsável: Monica Aiub
 
       

 
 
Como referenciar: "Alucinações Musicais - Resenha" em Só Filosofia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2020. Consultado em 12/07/2020 às 00:24. Disponível na Internet em http://filosofia.com.br/vi_res.php?id=16