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Histórias filosóficas

    (11/Mar) Escrever, pensar
 
O homem parecia ter desapontadamente perdido o sentido do que queria anotar. E hesitava, mordia a ponta do lápis como um lavrador embaraçado por ter que transformar o crescimento do trigo em algarismos. De novo revirou o lápis, duvidava e de novo duvidava, com um respeito inesperado pela palavra escrita. Parecia-lhe que aquilo que lançasse no papel ficaria definitivo, ele não teve o desplante de rabiscar a primeira palavra. Tinha a impressão defensiva de que, mal escrevesse a primeira, e seria tarde demais. Tão desleal era a potência da mais simples palavra sobre o mais vasto dos pensamentos. Na realidade o pensamento daquele homem era apenas vasto, o que não o tornava muito utilizável. No entanto parece que ele sentia uma curiosa repulsa em concretizá-lo, e até um pouco ofendido como se lhe fizessem proposta dúbia.

Clarice Lispector
     

 
 
Como referenciar: "Escrever, pensar - Histórias filosóficas" em Só Filosofia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2020. Consultado em 21/10/2020 às 21:07. Disponível na Internet em http://filosofia.com.br/vi_historia.php?id=156