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Entrevistas

  (06/Mai) Entrevistando o filósofo Railton Souza
 
Responsável - Will Goya


MINI-CURRÍCULO: Railton Souza
railtonsuigeneris@hotmail.com
www.professorrailtonsouza.blogspt.com
http://twitter.com/railtonsouza

É licenciado em filosofia pela PUC-GO (1998), especialista em ensino de filosofia pela UNB-DF (2002) e especialista em filosofia clínica pelo Instituto Packter-RS (2002). É pioneiro no processo de inserção da disciplina filosofia nas escolas de ensino médio. Foi o responsável pela elaboração de projetos e pela implantação dessa disciplina em várias escolas da cidade de Goiâna, onde atualmente leciona no ensino médio. É diretor de formação do SINPRO-GO (sindicato dos professores da rede privada do estado de Goiás) e diretor de formação da CTB-GO (Central dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil). Atua como formador, na direção distrital do Partido Comunista do Brasil.


ENTREVISTA:


Professor Railton, você é conhecido pelos seus alunos de filosofia do ensino médio, em Goiânia – GO, como um excelente professor. Em tempos de indústria cultural, substituição da leitura pelos vídeos, e de grande apatia intelectual entre os jovens, como explica o interesse que você desperta em seus alunos, enquanto professor de filosofia, uma matéria ainda tão impopular?

Railton Souza - Penso que esse é um desafio cotidiano. Para explicar como consigo despertar o interesse dos meus alunos, adolescentes que têm entre 14 e 18 anos, para o estudo da filosofia, apontarei vários fatores. O primeiro deles é que em cada aluno nessa faixa etária traz em si mesmo uma explosão de vida, de pulsões, de vontade, de potência. O que faço é respeitar isso, compreender a realidade deles, suas determinações biológicas, culturais e sua grande carência de amor e respeito.

O bombardeio de informações como internautas, como telespectadores não lhes tira a ânsia pela vida. Eles são cheios de questões. Simplesmente busco dialogar com eles. Os conteúdos programáticos da filosofia são um pretexto importante para que esse diálogo não seja fútil, sem propósito. O êxito do trabalho com adolescentes está no estabelecimento do diálogo. Para tanto deve haver as condições para que ele seja possível. Disposição de ambas as partes para a intersubjetividade. Observe: se sou daqueles que afirmam que essa geração de jovens é vazia, não tem nada de interessante no universo deles, são alienados, ineptos, não conseguem alcançar a grandeza do raciocínio genial dos professores de filosofia, realmente não será possível estabelecer o diálogo com eles.

Portanto, objetivamente falando, não há nada de extraordinário no fato de eu conseguir despertar o interesse dos adolescentes para os estudos filosóficos. O segredo é simples: respeito ao universo do outro, estabelecimento de pontes para a construção de uma intersubjetividade que tenha como elemento central a condição humana, a existência humana, seus sentidos e possibilidades nesse universo sideral tão complexo e instigante.


Na sua opinião, qual o lugar do ensino da filosofia no Brasil?

Railton Souza - O lugar da disciplina filosofia na escola brasileira sempre foi instável. Talvez a maior e mais longa presença dela na nossa história foi durante a colônia e o Império. Entretanto, o ensino da filosofia estava resumido em discursos metafísicos escolásticos. Na República ora a disciplina era incluída, ora excluída do currículo escolar. A mais recente exclusão foi aquela perpetrada pela ditadura instituída no Brasil pelo Castelo Branco. Foi com a redemocratização que, gradativamente, foram surgindo aqui e acolá experiências de inserção da filosofia na escola. O que havia antes era o ensino de Educação Moral e Cívica, OSPB (estudo dos problemas brasileiros) e um ensino pasteurizado da geografia e história.

Mas a garantia de um lugar mais definitivo para a disciplina filosofia na escola brasileira veio por meio da LDB 9394, que entrou em vigor em 1996. Ela trouxe a obrigatoriedade do ensino de conteúdos de filosofia e de sociologia para a formação e exercício da cidadania dos discentes secundaristas. Ao final do ensino médio o educando, segundo o texto legal, deveria demonstrar domínio desses conhecimentos. Logo, como o advento da LDB, muitos estados brasileiros começaram, já a partir do final da década de 90, o processo de inserção da disciplina filosofia nas escolas de ensino médio. É bem verdade que algumas escolas em Goiás, São Paulo, Minas e em outros estados, já traziam no seu currículo escolar essa disciplina. O fato é que o movimento de regresso da filosofia para escola veio mesmo por força de lei. O presidente tucano Fernando Henrique vetou, durante seu segundo mandato, o projeto do Deputado Padre Roque, que responderia uma questão que a LDB deixou aberta: a filosofia deve ser ensino da escola, como disciplina, ou seus conteúdos devem ser diluídos nas outras disciplinas? O projeto que tornaria a filosofia disciplina obrigatória no ensino médio foi vetado pelo FHC com o argumento de que seria dispendioso para o Estado e que não havia professores formados suficientes para a demanda que seria criada.

Quem colocou um ponto final nessa história foi mesmo o governo atual do presidente Lula. Sob os auspícios do ministro Fernando Addad, a Lei Federal nº 11.684/08 foi sancionada pelo vice-presidente da República, no exercício da presidência, José Alencar, em 2 de junho do ano passado. A nova lei, publicada no Diário Oficial da União de 03/06/08, alterou a Lei Federal 9.394/96, que estabelece as diretrizes e bases para a educação nacional, e determinou a obrigatoriedade das duas disciplinas em todas as séries do ensino médio.

O grande desafio posto agora é o seguinte: o lugar da filosofia na escola garantido pela força da lei está realmente seguro? A carreira docente é uma das piores remuneradas daquelas com nível superior. Muitos jovens que queriam seguir essa carreira se sentem desestimulados. Será que haverá estímulo deles para se tornarem professores de filosofia? Como está a formação dos professores nas universidades, especialmente federais, que não se preocupam com a formação docente, com a “pedagogização da filosofia”, mas tão somente com os bacharelados e a carreira de pesquisa desvincula do ensino, entendida como tarefa subalterna e mal sucedida?

Por incrível que pareça “parece mesmo” ser no mercado privado, com todos os seus problemas, com toda sua gana por lucratividade, que a filosofia tem encontrado maior apoio para se firmar. São inúmeras as experiências de escolas privadas com professores de filosofia atuando, embora precariamente, mas com êxitos significativos. No Estado, especialmente em Goiás, ainda há muita deficiência e instabilidade quando o assunto é o lugar da filosofia nas três séries do ensino médio a ser ministrada por professores licenciados em filosofia.


Mais especificamente, qual é o lugar da disciplina “filosofia” nas escolas que servem exclusivamente aos interesses do mercado, com fins de aprovação no vestibular?

Railton Souza - A escola ainda é um espaço-limite de poder, na perspectiva de Michel Foucault, todavia em crise e transição para um espaço de controle mercadológico como diria Deleuze. A escola que disciplinava, sujeitava, punia e vigiava, hoje é uma empresa que visa, tão somente, a lucratividade. Todos são controlados pelo mercado, diretores, coordenadores, supervisores, professores e alunos. Não há mais um disciplinamento de um poder central para o bom funcionamento da vida social sob a lógica da sujeição. O que vemos hoje é controle contínuo, a emergência da escola não escola, da escola onde não há produção de conhecimento, onde não há pensamento, mas apenas adestramento, cópia, simulacro.

Nesse contexto a filosofia deve dizer, falar, provocar, envolver as pessoas para compreenderem a trama sob a qual estão inseridas. A filosofia deve ser uma possibilidade de construção da autonomia, da crítica radical. Ela deve ser, em última análise, uma ponte para o sabotamento dessa lógica e prática de poderes.


2) Falando em filósofos e professores de filosofia no Brasil, quem você destacaria?

Railton Souza - Gosto muito do gaúcho Lúcio Packter. De formação inicial médica, psicanalítica, migrou para a filosofia. Conhecendo experiências dos aconselhamentos filosóficos europeus, pretendeu avançar criando uma nova metodologia, toda ela construída a partir de escolas filosóficas tais como a filosofia da linguagem, a fenomenologia, a lógica simbólica e formal, a lógica matemática.

O que gosto no Lúcio Packter é aquilo que outros consideram seu maior defeito, não ser acadêmico, não estar no circulo restrito da reprodução e da hermenêutica. Não se prestar ao serviço de ser um especialista guardião de um detalhe sórdido e inútil do pensamento alheio.

A filosofia de Lúcio não tem um fim em si mesma. Ela parte do ser humano e termina nele. É uma filosofia enraizada na vida, na existência, que busca mergulhar no infinito de cada subjetividade humana, respeitando-a e dialogando filosoficamente com ela a fim de que ela encontre a melhor forma de ser no mundo, a partir de sua própria axiologia, sensoriedade, abstração, intelecção, hábitos, dados agendados, temporalidade, espacialidade, emocionalidade, expressividade e verdades.


Amante da América Latina, em suas viagens pela Bolívia, Peru, Argentina e Paraguai você conheceu melhor o nosso povo latino. O que aprendeu com suas viagens?

Railton Souza - Uma coisa que me chamou a atenção nessas viagens foi o nível de politização dos povos que nos cercam. Os jovens são muito interessados nas questões políticas e sociais, como se observa na Argentina e na Bolívia. São profundos conhecedores do Brasil. Assistem as nossas novelas. Somos, num certo sentido, imperialistas. Encontrei em Santa Cruz de La Sierra vários jovens que tinham como sonho vir para São Paulo tentar uma vida melhor na indústria da confecção de roupas. À margem do lago Titicaca encontrei um grupo de jovens argentinos. Debaixo de um braço traziam livros de filosofia, sociologia, política, romances. E no outro traziam uma bola e nos desafiavam a uma partida de futebol. Os chilenos também são muito interessantes. Envolvidos e interessados em política. Algo que me estranhou em Rosário na província de Santa Fé, na Argentina, foi a falta de referência ao Ernesto “Che” Guevara de La Sierna. O Che nasceu lá. A referência mais conhecida que os argentinos a ele dão está no braço tatuado de Don Diego Maradona, que segundo o professor argentino amigo "da gente", Walter Omar Koran, é deus. Mas o incrível de tudo é que o Walter é ateu. Certa vez num restaurante aqui em Goiânia, na presença de Humberto Guido, da UFU, de Gonçalo Armijos, da UFG, nos fez cantar os "cumple años" de seu ídolo.

Resumindo, fico chocado com a ignorância do nosso povo brasileiro em relação aos povos latinos, em relação à sua cultura, músicas e literatura. Nas nossas escolas aprendemos o inglês e a mirar para o norte. Não nos ensinaram a falar espanhol. Aqui temos a ideia vulgar de que qualquer um sabe falar espanhol e que não se trata nem mesmo de língua estrangeira. É lamentavel. Fazemos coro aos ditames da mídia nativa que odeia a unidade da América Latina, demoniza o Evo Morales, o Chaves e todos aqueles que se simpatizam com um projeto independente de desenvolvimento nacional. Contraditoriamente, quando lhes aprouver, elogiam ditaduras na nossa história, como foi o caso da Folha de São Paulo que chamou a ditadura brasileira de “ditabranda”.

Will, amigo, aconselho a você e a todos que façam um “muchilão” e desbravem esse lindo continente, conheçam seus povos e cultura. Com certeza, a sua visão e a de cada um que fizer tal experiência se transfigurá.


Railton, além de professor, desde bem jovem você se envolveu em demandas comunitárias, causas políticas e religiosas, associações, sindicatos e outros... de alguma forma sempre se engajando em alguma luta social. Pergunto-lhe: diante do mundo que o circunda, o que mais lhe preocupa?

Railton Souza - Uma grande preocupação que tenho é com a juventude brasileira, sobretudo a mais pobre. Os jovens que estão entre 14 e 27 de idade, na sua maioria do sexo masculino, negros e pardos, são os preferenciais ocupantes dos gavetões gelados dos IML’S. São vítimas e protagonistas da violência. Morrem nos acidentes de trânsito, por causa do tráfico de drogas, traumas, tiros, brigas e suicídio.

Tenho observado como tem crescido, especialmente nas camadas mais pobres, o consumo de drogas letais como o crak. O que me chama mais atenção ainda é o descaso do poder público. Não há espaços públicos, clínicas de recuperação adequadas para atender essas pessoas. Talvez sejam vistas como lixo humano, uma escória imprestável. Entretanto, nos preocupamos quando um desses vem à nossa casa ou de sobressalto nos aborda na janela do nosso carro com uma arma na mão.

A raiz desse problema está numa estrutura social, notadamente em Goiás, que está fundada na gritante desigualdade. Não há oportunidades iguais. A educação de qualidade, a oportunidade de inserção no mercado de trabalho, as iniciativas de aquisição do primeiro emprego seriam saídas imediatas para minorar esse problema. Caso não façamos nada em relação a isso, seremos muito mais importunados em nossos condomínios ou nas janelas de nossos carros por jovens delinquentes, dispostos a matar ou morrer.

     

 
 
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