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Entrevistas

  (03/Jun) Entrevistando a filósofa Olgária Matos
 
ENTREVISTA COM A FILÓSOFA OLGÁRIA MATOS


Responsável - Will Goya


MINI-CURRÍCULO:
Possui graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1970), mestrado em Filosofia - Université Paris 1 (Panthéon-Sorbonne) (1974) e doutorado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1985). Atualmente é professora titular da Universidade de São Paulo, - Coleção Azul - Atiliê Editorial, - Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , programa do pós-graduação em comunicação da Universidade de Sorocaba, - Revista Kalagathos e professora visitante do curso de filosofia, da Universidade Federal de São Paulo.
Prêmio Jabuti, de 1990, pela obra Os arcanos do inteiramente outro Associação Brasileira do Livro; e indicação para o Prêmio Jabuti, em 2007, na categoria Ciências Humanas, com a publicação de Discretas Esperanças: reflexões filosóficas sobre o Mundo Contemporâneo, ed. Nova Alexandria.

PUBLICAÇÕES - Alguns dos principais trabalhos publicados:
1. MATOS, O. C. F. Contemporaneidades. 1. ed. São Paulo: Editora Lazuli, 2009.
2. MATOS, O. C. F. . Adivinhas do tempo: êxtase e revolução. São Paulo: Hucitec, 2008.
3. MATOS, O. C. F. Discretas Esperanças: reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo.. 1. ed. São Paulo: Nova Alexandria, 2006.
4. MATOS, O. C. F. Filosofia: a polifonia da razão. 3. ed. São Paulo: Scipioni, 1999.
5. MATOS, O. C. F. O iluminismo visionário: W. Benjamin, leitor de Descartes e Kant. 2. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1999.
6. MATOS, O. C. F. Vestígios: escritos de filosofia e crítica social. 1. ed. São Paulo: Palas Athenas, 1998.
7. MATOS, O. C. F. História viajante: notações filosóficas. São Paulo: Studio Nobel, 1997.
8. MATOS, O. C. F. Os arcanos do inteiramente outro: A Escola de Frankfurt, a melancolia, a revolução. 2. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1995.
9. MATOS, O. C. F. A Escola de Frankfurt - Sombras e Luzes do Iluminismo. 3. ed. São Paulo: Editora Moderna, 1995.
10. MATOS, O. C. F. O iluminismo visionário: W. Benjamin, leitor de Descartes e Kant. 1. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1993.
11. MATOS, O. C. F. A Escola de Frankfurt - Sombras e Luzes do Iluminismo. 1. ed. São Paulo: Editora Moderna, 1993.
12. MATOS, O. C. F. Cultura e Administração. Rio de Janeiro: MEC / Secretaria da Cultura / FUNARTE, 1985.
13. MATOS, O. C. F. Os arcanos do inteiramente outro: A Escola de Frankfurt, a melancolia, a revolução. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.
14. MATOS, O. C. F. Paris, 1968: As barricadas do desejo. 1. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
15. MATOS, O. C. F. Rousseau - uma arqueologia da desigualdade. 1. ed. São Paulo: MG Editores Associados, 1978.


ENTREVISTA:


Olgária, fale um pouco sobre a sua trajetória pessoal e acadêmica e diga por que um dia, em sua juventudo decidiu ser filósofa?

Olgária Matos - Então, Will... não foi nada preestabelecido. Eu tive uma formação no colegial, havia curso de filosofia, de línguas, de literatura... Naquela época dos anos 60 eu me dedicava muito à área que hoje se chama ciências humanas. Gostava muito dessa parte de filosofia e dos textos de literatura. Naturalmente, naquele tempo, você se definia entre as áreas biológicas, as áreas de engenharia ou as de humanas. Eu me dirigi para as humanas. Comecei estudando filosofia e psicologia na USP. Naquela altura era possível cursar duas faculdades, como de resto, em qualquer universidade na Europa e nos EUA. Depois, quando eu fui me interessando mais por filosofia, acabei não concluindo o curso de psicologia. Mais tarde me ingressei no curso da ECA, porém, como era muito inicial, ainda muito incerto o currículo e as aulas, eu acabei também não terminando o curso. E aí fui ficando no curso de filosofia numa época que não se dizia que isso era uma profissão. Formavam-se professores de filosofia. Essa designação "filósofo" é um pouco excessiva para uma situação em que nós somos professores de história da filosofia. O filósofo é justamente aquele que tem uma interpretação pessoal ou própria da história da filosofia, mas nenhum de nós, salvo raras exceções, pode-se dizer hoje filósofo.


Gostaria que você, como filósofa brasileira, o que mais lhe preocupa hoje no mundo?

Olgária Matos - Muito me preocupa essa tendência, talvez mundial, da redução de todos os ramos da vida à questão econômica. O padrão do raciocínio e do pensamento fica sendo o da autoconservação, da produção, do trabalho e do desemprego... quer dizer, as questões propriamente políticas ficam confundidas com as questões econômicas, e a tradição do espaço público, portanto, de um mínimo de espaço garantido de igualdade, onde todas as diferenças possam dialogar, um espaço que independa de poder aquisitivo, de religião, de raça, de preferências ideológicas... isso está tendendo a desaparecer nessa indiferenciação de uma igualdade abstrata no mercado consumidor. Acho que isso reduz o debate político e reprime o pensamento. Por outro lado, e correspondente a isso é o ascenso do populismo, quase que em nível internacional, e com isso você tem também uma fusão da sociedade, e o único fator de coesão fica sendo a aquisição de bens materiais. Eu acho que isso enfraquece a vida espiritual da sociedade e o exercício do pensamento.


Após tudo o que já se pesquisou sobre a Escola de Frankfurt pode suscitar novas ideias que iluminem os problemas do mundo? Isto é, haveria nos autores dessa Escola alguma idéia original ou perspectiva ainda não investigada devidamente?

Olgária Matos - Olha, como toda a filosofia, ela nunca é ultrapassada. Até hoje nós continuamos estudando Platão, porque aquilo que ele pensou no seu tempo teve uma posteridade. Cada época, quando se volta para uma obra de pensamento, como são os escritos filosóficos, você interpreta como o seu tempo está reconhecendo como o mais importante. Uma teoria não envelhece.
No caso da Escola de Frankfurt, porque são autores recentes,se você imaginar que começou na primeira metade do século XX - isso ainda é muito recente para a filosofia - toda questão da crítica da relação homem-natureza, a idéia da dominação produtivista, da dominação do homem sobre o homem, toda a questão da indústria cultural, que mal começa a ser compreendida, o que significou o fracasso do ideal humanista da educação, e o desaparecimento do papel existencial da cultura. Tudo isso que faz parte da crítica da industrialização da cultura e a sua transformação em mercadoria está começando a ser pensado. Eu acho que muitas das questões do Walter Benjamim, a questão da sociedade do espetáculo, da imagem que substitui a coisa da qual ela é imagem, toda a fronteira, muito maleável nesse momento, entre o real e o imaginário, quando o princípio de realidade não é muito identificável, essa questão da educação à distãncia ou das relações de nanotecnologias... tudo isso me parece motivo de ser pensado a partir dessas categorias frankfurtianas. Claro, essas teorias contêm muitas outras, como a psicanálise, a sociologia, a antropologia e a filosofia.


Em certa entrevista na Revista Galileu, você disse a seguinte frase: "se a filosofia é, antes de tudo um amor ao conhecimento, podemos concluir que a atual crise da cultura é uma crise da capacidade de amar". Gostaria que você comentasse sobre nossa atual crise na capacidade de amar.

Olgária Matos - Essa questão é complexa porque todas aquelas relações que necessitam de um longo prazo para a construção de laços, como relações de pais e filhos, relações amorosas, relações de conhecimento e relações no mundo do trabalho, são comprometidos pela aceleração do tempo. Nós não temos tempo para nos dedicarmos àquelas questões que por sua natureza exigem tempo. Se nós imaginarmos porque é que os gregos inventaram a filosofia propriamente dita e inventaram a idéia de contemplação - não no sentido da meditação religiosa, mas uma atitude do pensamento que dedica muito do seu tempo a certos objetos de conhecimento... Por que? Porque provavelmente são conhecimentos que necessitam de um longo prazo, e para você se dedicar muito tempo a alguma coisa você precisa estar afetivamente muito ligado a essa questão, que dura muito para se explicitar. Então essa idéia do amor significa uma relação afetiva com os objetos de conhecimento. Como nós estamos com poucas faculdades imaginativas e de tempo disponível pra essa forma de dedicação do tempo é que o Adorno - essa frase é dele - diz que isso está dificultando, fazendo com que o conhecimento não seja senão um acúmulo de saberes especializados, de fácil aplicação. E o que está se produzindo é uma cultura imune ao maravilhamento.


Um dos grandes filósofos do amor foi Erich Fromm que, apesar de um dos psicanalistas mais conhecidos do mundo é ao mesmo tempo um dos menos considerados nos meios acadêmicos. Duas perguntas: por que, na sua opinião? E qual a contribuição mais ogirinal desse autor para a Escola de Frankurt e para os nossos dias?

Olgária Matos - Realmente, ele é um autor injustamente esquecido, como durante muito tempo também Marcuse foi esquecido, e agora começam alguns estudos a serem retomados, mas de fato ele tem uma das contribuições mais interessantes para a filosofia, para a antropologia e para a psicanálise, porque ele trabalha diretamente a questão da dominação e a questão da liberdade. Em vez de buscar aquelas determinações econômicas da vida psíquica, no sentido marxista, ele dá uma figura afetiva a essa questão econômica e mostra que para você liberar o trabalhador do seu fardo, teria que primeiro liberar o trabalhador do próprio trabalhador. Então o tema da alienação foi trabalhado de uma maneira muito interessante por Erich Fromm.
Eu espero que seja retomado um estudo do pensamento dele, porque realmente é uma injustiça acadêmica, social e política, ele não estar sendo suficientemente estudado. Recentemente, questão de um ou dois anos, houve um encontro de filosofia alemã em São Paulo e houve uma mesa dedicada ao pensamento de Erich Fromm. Ainda não foi publicado. Espero que essas contribuições apareçam em breve.


Os meios de comunicação de massa, como jornais e TV, administrados pelas grandes empresas, hoje sofrem concorrência com a rica diversidade de canais midiáticos que estão nas mãos de jovens adolescentes de todo o mundo, cujas informações não podem mais ser filtradas ou censuradas. Com isso, o perigo da alienação e da barbarie exercidas pela indústria cultural e denunciado por Adorno e Horkheimer, estariam agora amenizados com a nova força da socialização advinda dos usuários e da liberdade da intertet?

Olgária Matos - Olha, isso não está suficientemente estudado porque é um fenômeno ainda muito recente. O que existe é uma proliferação de meios de transmissão de notícias, ou de participação do conhecimento, muito grande, mas a gente não tem um tempo correspondente para a assimilação de todas essas informações. Então estamos num instante de inflação mental e de muitas informações simultaneamente. Nessas coisas que se implantam na internet, a quantidade de boatos que circulam é imensa e todo tipo de informação cuja procedência você desconhece examente. Então o que tem que haver... - acredito que seja irreversível essa disponibilização, essa democratização das informações e do conhecimento - é que as pessoas também tenham uma educação para poderem fazer discernimento nessas questões todas, para saberem como buscar as informações em sites que possam ser confiáveis e saber quais não o são; saber essas que circulam que misturam boatos com ficção e realidade. Issa é uma questão que vai precisar do exercício do bom senso. E se deve ler isso como se lê um jornal, quer dizer, desconfiando do que está escrito. Porque há certas tradições culturais que acreditam na palavra escrita, que porque está escrito é verdadeiro. No Brasil, infelizmente, a gente nem sempre duvidou do que está escrito, então a gente pode estar continuando com esse papel crítico da leitura.


As máquinas de áudio e vídeo parecem saturar os espaços da sociedade de consumo. Razão disso, que até no século passado alimentava a imaginação com exercícios de crítica e autonomia agora tem concorrência com filmes e vídeo-games absolutamente sedutores. Em sua opinião, a literatura e o leitor no século XX, com consciência histórica, podem ceder lugar no séc. XXI a um tipo de leitor anti-histórico, preferindo textos sem contextos, e a uma pseudoliteratura de internet?

Olgária Matos - Eu acho que essa é a tendência, agora como toda tendência de massa você tem aqueles recintos onde continuam havendo leitura e reflexão. Por exemplo, até a minha geração você tinha no currículo escolar inglês, francês, grego, latim, filosofia e literatura, ou seja, um princípio de democracia do conhecimento que precisava ser expandido para todos. Depois da ditadura, ao invés de se universalizar isso para todas as escolas, o que se fez foi retirar esses saberes do currículo. Nem por isso desapareceram os leitores que vão continuar lendo Homero e Dante no original, só que agora se elitizou a cultura, e apenas uma parcela minúscula da sociedade vai continuar tendo acesso a esses conhecimentos. Eu acho que essa cultura visual não compete com a escrita, ela substituiu a escrita, mas nem por isso a escrita vai desaparecer. Acho que é mais ou menos a relação que quando se dizia que a televisão iria acabar com o cinema, ou que a fotografia iria acabar com a pintura, quer dizer, são artes autônomas, que têm vida própria, então eu não acredito que uma coisa elimine a outra.


Nesse sentido, como a senhora avalia a desconfiança de filósofos como Baudrillard ou o otimismo diante da máquina e da técnica, segundo Pierre Levy?

Olgária Matos - Entre a adesão afirmando que só porque é novo é bom, a dizer que as tecnologias são em si liberadoras e, por outro lado, uma visão mais crítica, eu sempre gosto mais daquilo que é crítico, porque como o mundo nunca vai ser justo - pois existem todos os tipos de desigualdades, econômicas, de talento, de cultura, de saúde... enfim, algum tipo de desigualdade sempre haverá - então a nossa função intelectual é mostrar onde estão essas desigualdades e aprimorar as possibilidades de reparação. Então, toda vez que alguém adere, sem nenhum considerando as novidades, eu desconfio, porque a função do filósofo está definida por Sócrates, no séc. V a.C., ou seja, o filósofo é aquele que tem o desejo da evidência e o sentido da ambiguidade das coisas, porque nada é tão explícito e tão transparente que é definitivamente conhecido. Então eu acho que o espírito crítico está mais do lado dos considerandos sobre as coisas do que em acatar o imediato de tudo.


Diante da recém-inaugurada filosofia clínica no Brasil, o que a senhora acha da função terapêutica da filosofia? O que conhece e o que acha da filosofia poder ser uma orientação existencial em consultórios?

Olgária Matos - Eu li algumas coisas sobre isso, mas eu acho que há um grande equívoco, porque são práticas de autoajuda, como se tem as modas de budismo, relaxamento, de exercícios taoístas... enfim, faz parte do repertório do mundo contemporâneo, que vem ao encontro das necessidades existenciais que as pessoas necessitam. Agora, todas as vezes que se quer transformar a filosofia em um conjunto aplicável de conhecimentos, não funciona, ela se desnatura em uma outra coisa, porque não é da natureza da filosofia estar atendendo de imediato a questões práticas. Ela trabalha as questões do pensamento que por sua vez vai sendo incorporado pelas pessoas e se dissipando no mundo. Agora, você a utilizar como uma técnica de autoajuda... eu não vejo muito como intrínseco à filosofia.
Foi da filosofia no período em que a filosofia era um modo de vida, e como um modo de vida filosófico vigorou-se durante um tempo na Grécia, no séc. V a.C. até o séc. II mais ou menos, e depois ela foi se especializando e se tornando uma especialidade. A partir disso nós perdemos aquele mundo no qual o modo de vida filosófico fazia sentido. Então, requisitar a filosofia como um modo de vida ou como um modo de terapia, que ela era nas suas origens - era uma medicina da alma, era um consolo terapêutico -, mas hoje sem a transcendência metafísica que correspondia a esse tipo de conhecimento, é como se a gente praticasse burocraticamente o conhecimento; é como se hoje praticássemos o mito sem a transcendência mitológica. São fórmulas feitas, prontas, que não correspondem ao pensamento vivo daquela filosofia. Mas isso eu digo com pouco conhecimento que eu tenho a respeito... porque eu tenho uma visão da filosofia na qual o tratamento imediato com ela não me parece compatível.


Olgária, sobre a ideia de que a filosofia nos dias de hoje não poderia ser terapêutica, para não desnaturá-la da sua natureza especulativa própria, tornando-a instrumental e “aplicada”, tenho uma pergunta: embora Karl Marx tenha feito também essa crítica, ele foi contra todas as filosofias puramente especulativas e não práticas. A concepção de uma filosofia da práxis não seria justamente uma filosofia com função prática, a evitar o imediatismo que essencialmente nada transforma?

Olgária Matos - Quando os gregos clássicos diziam ser a filosofia uma medicina da alma, como Sócrates, alguns sofistas, Epicuro ou então os estóicos romanos como Sêneca - que escreveu um livro com o título "Sobre a Brevidade da Vida" - eles tratavam sempre da busca da justa vida e do bem viver, da busca da felicidade, por mais indeterminada que esta seja. Sócrates dizia que a palavra é para a alma o que o remédio é para o corpo. Mas se tratava de uma época preocupada com o conhecimento e o autoconhecimento, que buscava a virtude, e a filosofia era um modo de vida filosófico, porque se acreditava na potência do conhecimento para o aperfeiçoamento de si.
Já Marx não tem muito apreço pela filosofia porque diz que a realização prática da filosofia é sua supressão teórica, quer dizer, quando a realidade opaca e alineada, dividida em classes econômicas e fundada na divisão social do trabalho e na exploração da mais valia for superada, não haverá mais filosofia nem necessidade das ilusões religiosas. Assim, quando Marx pensa em uma filosofia prática, não é a praxis no sentido grego, como ética e política, como autoconhecimento e virtude, mas da luta entre as classes e da determinação econômica de todas as esferas da vida. E, também, a afirmação da Ideologia Alemã "Os filósofos já interpretaram o mundo, trata-se de transformá-lo" foi entendida como um convite à ação imediata, e todas as vezes que se quer converter uma ficção teórica - que são as filosofias em programa de ação – dá-se uma catástrofe, porque o real não corresponde a nenhuma teoria, nem à de Platão, nem à de Marx, nem de outras.
Para marcar a heterogeneidade entre teoria e práxis, na pós-segunda Guerra Mundial, com a experiência do nazismo e do estalinismo, cada qual à sua maneira, querendo realizar utopias da sociedade como uma única classe social ou como uma única raça, Adorno escreveu: "posto que os filósofos não transformaram o mundo, trata-se de continuar a interpretá-lo".
     

 
 
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