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Entrevistas

  (12/Mar) Entrevistando a filósofa Gisele Secco
 
Responsável - Will Goya


MINI-CURRÍCULO:

Gisele Secco -
secco.gisele@gmail.com
Nasceu no dia 06 de junho de 1982 em Carazinho, interior do Rio Grande do Sul. Graduou-se no Curso de Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, 2004), onde também cursou Mestrado em Filosofia sob a orientação do Prof. Dr. Frank Thomas Sautter (2006), com uma pesquisa sobre Lógica Deôntica. Atuou na cidade de Santa Maria como professora em pré-vestibulares e, entre maio de 2007 e julho de 2008, foi professora auxiliar do Departamento de Filosofia da UFSM. Atualmente é bolsista do CNPq no Doutorado em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Carlos Pereira.


A ENTREVISTA:


Gostaria de começar ouvindo um pouco da sua história pessoal com sua formação em filosofia.

Gisele Secco - Entrei para a licenciatura em filosofia na Universidade Federal de Santa Maria com 17 anos. Pensava em fazer psicologia, sabia que queria trabalhar na área das humanas, e como tive alguma leitura introdutória de filosofia no Ensino Médio (embora não boas aulas) resolvi ir para a filosofia. Na verdade minha opção teve muito a ver com um sentimento muito comum em jovens do terceiro ano do ensino médio: um receio de não conseguir a pontuação necessária para passar no processo seletivo, causado pela pressão com relação a essa decisão, ao próprio ingresso na universidade.

Por fim, como parece, fui parar no lugar adequado às minhas inquietações e à minha vontade de dar aulas. Demorou um tempo pequeno para que eu me envolvesse... Foi no terceiro semestre de graduação, com um projeto de extensão em educação popular que havia surgido um par de anos antes, por iniciativa de alunos do curso de graduação em história da UFSM – o “Práxis” Pré-Vestibular Popular. Como muitos pelo Brasil, o Práxis era um pré-vestibular tocado pelos alunos, sob a orientação um pouco mais burocrática do que efetiva de algum professor do departamento de Educação ou mesmo de História. Alunos de graduação dos cursos da universidade se reuniam em grupos para preparar o material didático – programas das disciplinas, apostilas – muitas vezes com atividades interdisciplinares. Tentávamos usar um meio tradicional (o pré-vestibular) para uma educação alternativa. Nesse contexto, já no ano de 2001 os alunos carentes selecionados pelo projeto tinham duas aulas por semana de filosofia. Ainda não era obrigatório o ensino de filosofia no EM, nem a disciplina era exigida nos processos seletivos (vestibular e PEIES – Programa Experimental de Ingresso ao Ensino Superior) da UFSM. Começamos, eu e alguns colegas que já lecionavam, a produzir materiais didáticos alternativos, e a realização de atividades conjuntas com colegas que lecionavam outras disciplinas.

Ao mesmo tempo, até um pouco antes, matinha bolsas de estudo, primeiro em filosofia antiga e depois, do segundo ano até o final do mestrado, fui orientanda do Prof. Frank Thomas Sautter. Estudamos uma modalidade de lógica, a lógica deôntica (a lógica desenvolvida para dar conta de sistemas de normas, como os morais e jurídicos), em conjunção com algumas questões relativas à fundamentação da matemática. Escrevi uma dissertação sobre o sistema standard de lógica deôntica, uma espécie de leitura kantiana desse sistema. Durante o último ano de mestrado precisei me afastar do “Práxis”, mas nessa época já haviam outros colegas da filosofia envolvidos no projeto. Lembro-me de sempre estranhar muito a falta de interesse de alunos de graduação em exercitar o que muito provavelmente farão para o resto de suas vidas.

Não sei se é pela tendência de “puxar a brasa pro seu assado”, mas notei, durante os anos de trabalho no “Práxis”, que os alunos da graduação em filosofia foram sempre os que menos participavam. Quando paramos para fazer umas contas, constatamos que em quatro anos o projeto contou muito mais com a participação de alunos das engenharias dando aulas de física e matemática, do que alunos da filosofia! Dado interessante, que pode levar a vários questionamentos. Depois do mestrado lecionei durante três anos, em um pré-vestibular provado da cidade e na UFSM, como professora auxiliar. Hoje curso doutorado em filosofia na PUC-Rio, sob a orientação do Prof. Luiz Carlos Pereira. Estou estudando filosofia da matemática, mas meu interesse pelas questões relativas ao ensino de filosofia é constante.


Com a inclusão da filosofia como disciplina obrigatória no currículo do Ensino Médio no Brasil, bem como em alguns vestibulares, como você vê as discussões entorno do ensino de filosofia no Brasil? Em que sentido poderíamos dizer que estamos avançando?

Gisele Secco - Considero a inclusão o resultado de anos de discussão e pressão por parte de professores da disciplina, organizados em torno da pauta da obrigatoriedade. Essa pauta determinou durante muito tempo os discursos em torno do ensino de filosofia no Brasil. Hoje em dia, o quadro é outro. Quando terminei o mestrado em 2006, e a filosofia já tinha sido incluída como disciplina dos processos seletivos da UFSM, e acabei indo dar aulas em um pré-vestibular privado de Santa Maria. Foi uma experiência interessantíssima de diversos pontos de vista. Primeiro porque por essa época, talvez um pouco mais do que hoje em dia, havia quase ninguém apostando que aulas de filosofia em um curso no formato do pré-vestibular poderiam “corresponder à natureza da atividade filosófica”. Tampouco havia simpatia, o que ainda hoje é visível, para com a ideia de que conhecimentos de filosofia pudessem ser avaliados através de questões objetivas. Alguns argumentam ainda hoje como se isso fosse algum tipo de heresia. Eu considero essa atitude um exagero, especialmente se não discutirmos mais seriamente quais devem ser os objetivos de se ensinar filosofia no EM.

Um argumento como o de que filosofia no vestibular não é filosofia, porque o formato de uma questão de vestibular não condiz com a natureza da disciplina pressupõe uma determinação mais ou menos precisa do que venha a ser a natureza da atividade filosófica, e sabemos que esse é um problema filosófico ele mesmo. Por outro lado eu sempre acreditei, e continuo acreditando, que a existência desse problema não pode paralisar as tentativas de buscar inserir a filosofia, ainda que de modo experimental, no cotidiano da vida escolar. Ainda que, como no caso da inserção na seleção da UFSM, o programa tenha sido em princípio, aplicado mais diretamente nos pré-vestibulares. Às vezes eu percebo, nas discussões em torno da produção e aceitação de um currículo básico para a filosofia, uma ânsia por se ter “o” currículo correto, ânsia que disputa com outra: a de que não se pode ter um currículo de filosofia para o EM porque isso engessaria a dialética constitutiva da atividade de filosofar. Temos que aprender a discutir no meio dessas tensões. Mais do que isso: temos que agir em favor de uma didática para a filosofia que ultrapasse as ideias-propaganda como a de que a filosofia é a responsável pelo estímulo e desenvolvimento do pensamento crítico, da educação para a cidadania dos jovens, e que é isso o que justifica sua presença no currículo... Vejo muito poucas discussões dessa perspectiva. É uma pena. Por outro lado, existe uma tentativa lúcida e original, talvez menos conhecida do que deveria, de discutir esses temas todos, que é o livro do Prof. Ronai Pires da Rocha, da UFSM. “Ensino de Filosofia e Currículo”, publicado em 2008 pelas Editoras Vozes. Escrevi uma resenha desse livro, que considero indispensável à formação de licenciados em filosofia, que está disponível em http://criticanarede.com/html/ensinodefilosofia.html

Acredito que as discussões sobre o ensino que filosofia que ficam restritas à repetição daquelas ideias-propaganda de que falei antes, e mesmo às discussões mais abstratas sobre “como ensinar filosofia em tempos pós-tudo” não tendem ao sucesso no que diz respeito à introdução da filosofia no contexto escolar. Como a maioria das discussões de que participo e que observo ainda estão no registro dessas ideias, considero que ainda temos muito para ser feito.


Ainda sobre esse tema do ensino de filosofia, fale um pouco sobre o trabalho do professor Dr. Ronai, que você conhece de perto, e sobre como isso influenciou o seu trabalho como filósofa.


Gisele Secco - O professor Ronai, possui uma trajetória de discussão e prática no ensino de filosofia pelo menos desde 1992. Seu ponto de vista está comprometido com “o chão da escola”, como ele mesmo gosta de dizer. Essa expressão, para mim, é muito representativa de um paradigma inteligente a partir do qual falta tentar pensar a filosofia em sala de aula. Para Ronai, e eu compartilho dessa maneira de ver a filosofia na escola, não se pode perder de vista que a filosofia encontra-se inserida num contexto curricular previamente dado à obrigatoriedade da disciplina, e que o domínio dos problemas e questões filosóficas está de algum modo “transversalizado” nas outras disciplinas escolares. Da matemática à educação física. Pensar a filosofia como uma disciplina que tenta dar conta dos conceitos que condicionam nosso modo de compreender o mundo – conceitos que estão espalhados, e são abordados por todas as demais disciplinas – pode tornar o currículo da filosofia mais dinâmico, seja do ponto de vista da atividade mesma de questionamento filosófico, seja porque a filosofia pode ser pensada como a disciplina que transita, ao seu modo, pelas demais. Nesse sentido creio que tanto o livro de Ronai quanto o modo como a filosofia vem sendo cobrada nos processos seletivos da UFSM são um exemplo a ser observado por aqueles que pretendem pensar o ensino de filosofia no Brasil atualmente.

Escrevi um artigo sobre isso com meu colega Andrei Cerentine, no qual analisávamos algumas questões da prova de filosofia do vestibular da UFSM de 2007, mostrando que essa característica (que Ronai chama de “transversal”) da filosofia pode ser bem explorada em questões de natureza objetiva, sem ferir o que parece ser uma das especificidades da atividade filosófica: a formulação de perguntas acerca de conceito, ideias, crenças e conhecimentos que subjazem a compreensão e a ação humana no mundo. Sei que essa abordagem paga tributos a certa maneira de fazer filosofia, mais próxima da assim chamada tradição “analítica”, mas não vejo por que razão essa perspectiva deva dar lugar, ao menos não completamente, à tradição muito mais difundida no ensino de filosofia no Brasil que é aquela do (mau) ensino da história da filosofia. Precisamos avançar no sentido de apresentar aos jovens a filosofia naquilo que ela tem de atrativo para qualquer pessoa: o estímulo às curiosidades humanas mais fundamentais, estejam elas distribuídas curricularmente onde for. O livro de Ronai é um passo decisivo para tal avanço.


Diante da importância das multimídias, no mundo da pós-modernidade, como você entende o papel didático e pedagógico do professor de filosofia em sala de aula?

Gisele Secco - Hoje em dia, quando são tão expostas na mídia (seja ela de que natureza for: televisão, rádio, mídia impressa ou internet) quantidades impressionantes de informação, nem sempre conectadas de modo a sugerir o mínimo que seja de reflexão, creio que a filosofia pode desempenhar um papel formacional sem igual. Na verdade, a filosofia tem valor em si mesma, independentemente das circunstâncias, mas gostaria aqui de destacar como um assunto qualquer exposto pela mídia pode ser abordado de um ponto de vista que estimule a reflexão mais criteriosa acerca de algo, reflexão característica de algumas filosofias.

Vejamos, por exemplo, para seguir pensando em algo que acabo de mencionar, a discussão em torno dos direitos autorais em tempos de downloads. A partir desse tema, numa aula de filosofia com jovens, podem ser desdobradas inúmeras questões de natureza filosófica: a justificação da necessidade de direitos autorais (que poderia levar às questões acerca da necessidade dos meios de produção de cultura; a própria ideia de como a cultura humana se produz), a natureza ético-jurídica das disputas em torno da proibição de downloads, a análise dos argumentos a favor e contra a proibição, e assim por diante. Discutir esse tipo de assunto é, a meu ver, uma atividade que, se filosoficamente orientada, enriquece as capacidades argumentativas dos sujeitos, possibilitando novas maneiras de pensar o que sempre pensamos.


Qual a importância da atuação do filósofo hoje no Brasil?

Gisele Secco - Sobre a importância da atuação do filósofo hoje no Brasil, creio que uma resposta pode ser dada no seguinte sentido: qualquer agrupamento humano está sujeito fortemente à existência de conflitos de toda ordem. Muitos deles são causados por desentendimentos acerca das ideias que as pessoas têm das coisas, e esse tipo de desentendimento pode ser resolvido à força bruta, ou à força de convicções. A filosofia aparece quando as convicções podem ser avaliadas criteriosamente pelos interessados em fazê-lo, sem que a força seja o parâmetro final de decisão. Aliás, sabemos que a filosofia não é muito dada a decisões finais. Assim, penso que o papel do filósofo, e nisso eu me sento influenciada pelo pensamento de Wittgenstein, é o de formular de modo mais claro possível as questões de maneira a que os problemas causados por aqueles desentendimentos possam ser dissolvidos. Nosso direito de esperar dar respostas às “grandes questões”, na medida em que, em sua grande maioria, a própria formulação é equivocada, pode ser discutido.

Não podemos ficar pensando no que vai ser “o futuro do (ensino da filosofia) Brasil”, ou simplesmente em “como é possível que falte tanta ética na política”, se não somos capazes de distinguir, no presente, quais as condições, não apenas históricas e sociais, mas de nosso próprio pensamento, para o surgimento de problemas que poderíamos eliminar caso sua formulação fosse esclarecida. Dito de outro modo, e mais especificamente no que diz respeito aos problemas do ensino de filosofia, penso que precisamos atentar menos para os antigos problemas-jargão como o da possibilidade mesma de ensinar a filosofia ou o filosofar, e mais para o modo como vamos fazer isso no atual contexto, repleto, como sabemos, de dificuldades, mas, ao mesmo tempo, de possibilidades diversas para reinventar nossa prática em sala de aula e o modo de pensá-la e discuti-la.

Com relação ao outro problema que citei, o da falta de ética na política, por que não pensar em estratégias filosóficas de abordagem dessa questão que passem pelas aulas de educação física na qual questões éticas fundamentais aparecem em carne e osso? Evidentemente eu não penso que as questões e modos clássicos de fazer filosofia devam ser preteridos, especialmente porque penso que no Brasil estamos muito bem servidos de filósofos trabalhando em prol disso. Para mim, pensar em estratégias para ensino de filosofia no Brasil, é o grande desafio de professores e alunos. Colocar em prática tais estratégias, experimentando-as plenamente, um desafio ainda maior.



Você vem se dedicando aos estudos de lógica e de filosofia da linguagem, particularmente a questões relativas à Filosofia da Matemática, derivando conceitos importantes para a Filosofia da Matemática de Wittgenstein. De um modo simples, fale um pouco das suas motivações para essa linha de pesquisa e o que de mais importante tem aprendido com isso.


Gisele Secco - Minhas motivações para a pesquisa em filosofia da matemática têm a ver com o mesmo tipo de curiosidade que me levou à filosofia: por que certas questões e tipos de conhecimento são tão complicadas? Qual é a natureza dos diferentes tipos de saber, e como eles se relacionam? Nesse sentido, a matemática é um prato cheio. Você pode conversar com muitas pessoas acerca de seu aprendizado de matemática e vai ver que uma boa parte delas tem uma história de pequenos desastres. É claro que uma coisa é falar desses pequenos desastres em termos da didática específica da disciplina. Mas no caso do desenvolvimento da minha pesquisa, que é sobre as discussões em torno do uso de computadores em provas matemáticas, há uma maneira de pensar a matemática, sua fundamentação e, por que não, seu ensino, uma maneira filosófica. Com isso eu quero dizer que pensar se o que um computador faz ao auxiliar na prova de um teorema é realmente provar, pode levar a pensar muitas outras questões que tocam nos nervos centrais da epistemologia: como conhecemos? O que podemos conhecer? E, no caso específico da matemática, como adquirimos conhecimentos matemáticos?

Ora, tradicionalmente a matemática é caracterizada como um domínio de conhecimentos que não depende da experiência sensorial, que os conhecimentos matemáticos são adquiridos via provas ou demonstrações. Isso faz da matemática a "rainha" das demais ciências, “o” modelo de conhecimento. Isso vem pelo menos desde Platão. Aristóteles desenvolveu sua teoria da demonstração provavelmente inspirado no modo grego de provar teoremas em geometria (partindo de certos princípios indemonstráveis, as hipóteses e definições) e operando com algumas regras (lógicas) de inferências, chegar a uma conclusão que não deixa nenhuma dúvida quanto à sua verdade. A que se contrapõe esse modelo de conhecimento? Àquilo que desde a modernidade tem sido chamado de ciências naturais: o conhecimento adquirido via experimentação para testar hipóteses.

É claro que a matemática e a lógica são fundamentais para as ciências físicas, mas o que me parece interessantes pensar é como se dão as relações entre matemática e ciências, a aplicação da matemática às ciências e no que a matemática aplicada difere fundamentalmente da matemática pura. Quando se começa a pensar essas questões, percebe-se que o que aprendemos na escola sob o título "matemática" poderia ser muito melhor explorado se a natureza mesma da disciplina fosse esclarecida. E não cabe necessariamente ao professor de matemática tratar filosoficamente de sua disciplina, mas sim ao professor de filosofia, que cuida das inquietações mais fundamentais do ser humano (sejam elas de ordem teórica ou prática). Quem não se inquietou alguma vez com a matemática?

Nesse sentido, ter chegado à filosofia de Wittgenstein pela via das preocupações com a matemática foi um ganho excepcional em minha formação. Wittgenstein é um filósofo do qual muito se fala, e tem uma filosofia a partir da qual se vendem muitas ideias-propaganda, ideias que muitas vezes aparecem fora do contexto e se prestam a gerar confusões que Wittgenstein mesmo, imagino, detestaria. A vantagem de abordar seu pensamento do ponto de vista da filosofia da matemática é que isso possibilita ver mais continuidades em seu pensamento do que normalmente se vê. Suas contribuições para a filosofia, a meu ver, evidentemente são de uma amplitude enorme, e eu não tenho a pretensão de dar conta nem de sua filosofia da matemática. O que faço em minha pesquisa é mapear em que medida a distinção entre provas matemáticas e experimentos científicos (que se relaciona com outra distinção fundamental em sua filosofia, entre o domínio prescritivo e descritivo dos usos da linguagem) pode contribuir para o debate em torno do uso de provas matemáticas auxiliadas por computador, na medida em que se tem argumentado que elas seriam "novos modos de provar matematicamente", pois incluiriam elementos de ordem empírica na, até então, "pureza" da atividade matemática. O que de mais importante tenho aprendido com minha pesquisa talvez diga respeito muito mais à metodologia filosófica do que a qualquer conteúdo específico: tentar esclarecer os termos dos problemas que nos são apresentados, para conferir se eles merecem esse estatuto de "problema filosófico".

     

 
 
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